luz e sombra na arquitetura
LIGHT AND SHADOW IN ARCHITECTURE
ombre et lumière dans l'architecture
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4 de out. de 2011

noite 2


























Casa Batlló ("casa dos ossos"): Barcelona, Espanha, 1906, por Antoni Gaudí 
CASA BATLLÓ ("HOUSE OF BONES"): BARCELONA, SPAIN, 1906, BY ANTONI GAUDÍ 
Casa Batlló ("maison des os"): Barcelone, Espagne, 1906, par Antoni Gaudí
Continuando a série sobre iluminação de fachadas, esta imagem mostra a Casa Batlló ressaltando aos olhos em relação aos prédios vizinhos. Ela é constituída de dois edifícios que possuem uma ligação de forma cilíndrica, com térreo, andar principal, quatro andares e mansarda. Sua fachada, recoberta com “trencadís” (técnica tradicional na região que consiste em revestir uma superficie com pedaços coloridos de cerâmica que teriam sido desperdiçados) cria uma ondulação suave e um efeito cromático excepcional, sendo um perfeito suporte para a mansarda curvilínea, ascendente e descendente, com textura semelhante a escamas de peixe. O grande espaço interno é como uma outra fachada, quase como uma outra casa. Possui um revestimento cerâmico que varia do azul ao branco, o que contribui ainda mais para o efeito marinho do edifício. Na entrada e na sala de jantar do piso principal e no térreo observa-se que o arquiteto fugiu totalmente das linhas retas. Todo esse conjunto, incluindo as formas esculturais dos móveis, formam um ambiente relaxante, quase mágico.

Para saber um pouco mais sobre a vida e a obra de Gaudí e sobre o movimento Art Noveau da história da arquitetura:

Antoni Gaudí nasceu em Reus (Tarragona), povoado do interior da região da Catalunha, Espanha, em 1852. Estudou na Escola Provincial de Arquitetura de Barcelona, entre 1873 e 1878. Na universidade, colecionava gravuras greco-romanas, latinas e bizantinas, obcecado que era pela cultura mediterrânea e oriental. Gaudí era um leitor assíduo de Viollet le Duc, pelo qual foi profundamente influenciado. Le Duc afirmava que as “formas da Natureza são belas, desde um carvalho até um inseto. A forma indica claramente para que fim foi produzido. A máquina é a expressão exata da função que desenvolve. É deste ponto que parte o pensamento e os estudos de Gaudí, refletidos em sua arquitetura.

Ainda estudante, trabalhou em um escritório de arquitetura, no projeto de uma das obras mais importantes que estavam sendo realizadas em Barcelona: o Parc de la Ciutadella.

Seus primeiros projetos como arquiteto independente foram: revérberos (lâminas metálicas que aumentam a intensidade da luz, concentrando-a em certa área) para a Plaza Real e a iluminação para a Muralla de Mar, ambos em Barcelona, e a Cooperativa Operária Mataronense, em Mataró.

Em 1883, Gaudí recebeu a tarefa de continuar a obra do Templo Expiatório da Sagrada Família, que já havia passado por dois arquitetos. Dedicou-se simultaneamente ao projeto e à construção dessa obra até o fim de sua vida. O templo está até hoje em construção, sendo o trabalho mais conhecido de Gaudí e cartão-postal de Barcelona.

Sua vida profissional pode ser dividida em duas etapas. No início da carreira, Gaudí esforçou-se para encontrar um estilo próprio, nacionalista, buscando influência em diversas culturas e estilos: arquitetura mulçumana (Casa Vicens e Villa El Capricho); arte gótica (Palau Güell, Convento Teresiano, Palácio Episcopal de Astorga e Casa Fernandez Andrés); arte barroca (Casa Calvet, Torre Bellesguard). Interpretava tais estilos de uma forma pessoal, sempre tendo como base o estudo da natureza como fonte inesgotável de inspiração.

Na segunda etapa Gaudí abandona estilos históricos e adquire formas livres, universais. As obras mais importantes desse período são: o Parque Güell, a Casa Batló, a Casa Milá, as Escolas da Sagrada Família e a Cripta da Colônia Güell, além do inacabado e monumental Templo da Sagrada Família, que sintetiza todo o trajeto arquitetônico gaudiano.

Mas antes de estudarmos a obra de Gaudí é importante entendermos o contexto artístico e social em que ela se desenvolveu. Na Europa, o fim do século XIX caracteriza-se pelo ecletismo artístico, ou seja, uma mistura de estilos. Coexistiam o Movimento de Artes e Ofícios, os Pré-Rafaelitas, o Simbolismo, o Pós-Impressionismo, o Pontilismo, o Divisionismo, os Nabis, etc. 

A arquitetura, em particular, entra em crise ao não apresentar novas soluções técnicas e estilísticas, baseando-se na repetição de movimentos artísticos (neo-classicismo e neo-romantismo).

Esse momento de indefinição se desfaz com o surgimento do movimento chamado Art Noveau, que abrange a última década do século XIX e as primeiras do século XX. Neste período, buscava-se inspiração nas formas da natureza, utilizando linhas sinuosas, formas ondulantes e assimetria. O estilo abrangia principalmente a ornamentação de portas, janelas, móveis, paredes e objetos.

Na Catalunha, onde a burguesia estava em plena expansão e procurando diferenciar-se do resto da Espanha, surge um movimento correspondente ao Art Noveau, porém com uma expressão mais regionalista. Buscavam uma arquitetura nacional, valorizando os materiais e costumes locais, tendo como base motivos florais.

A obra de Gaudí segue uma trajetória de certa forma isolada, pois sua obra, apesar de estar no contexto do Art Noveau, possui características especiais, absolutamente pessoais e muitas vezes difíceis de definir. Seu estilo é mais robusto, estrutural e tridimensional que o característico do Art Noveau.

Gaudí empregava materiais de sua região, como o azulejo, o tijolo e a pedra, herdados de tradições árabes e romanas presentes na Catalunha. Foi quem primeiro utilizou o cimento armado na Espanha. O ferro e posteriormente o aço permitiram o uso de novas formas. Fez estudos para utilizar barras metálicas na construção dos elementos da Sagrada Família, o que hoje está sendo feito, com a continuação das obras em concreto armado.

Gaudí pesquisou as origens e o sentido da estética, e chegou à conclusão que as formas encontradas na natureza expressam suas necessidades funcionais. Passou então a estudar as formas estruturais mais perfeitas conhecidas, até descobrir o parabolóide hiperbólico, que seriam mais tarde empregados nos pavilhões de entrada do Parque Güell.

Referências bibliográficas:  
GÜELL, Xavier. Antoni Gaudí. São Paulo, Martins Fontes, 1994 (trad. Eduardo Brandão).
REYNOLDS, Donald. A Arte do Século XIX. São Paulo, Círculo do Livro (trad. Álvaro Cabral).

11 de set. de 2011

gótico 2


 























Sainte-Chapelle: Paris, 1242-1248


Após as fases primitiva e clássica do gótico, inicia-se o PERÍODO GÓTICO TARDIO (aprox. de 1250 a 1530) da história da arquitetura. Essa fase final da arquitetura gótica é marcada por uma abundância de elementos decorativos, que representam folhagens, troncos, galhos, em linhas rebuscadas e fluidas. As igrejas contêm uma profusão de esculturas dos santos, cujas vestimentas são também rebuscadas, com muitas pregas. Houve poucas transformações espaciais e a principal delas foi a unificação do espaço. As igrejas desvincularam-se da planta basilical e surgiram as igrejas-salão: as naves laterais passaram a ter a mesma altura da nave central e, assim, o clerestório desapareceu. 
 
Na França, esse período é representado pelas fases rayonnant e flamboyant, que significam "radiante" e "flamejante", respectivamente. Tais denominações, além de indicar a forma dos elementos decorativos em pedra das janelas, podem nos indicar também como a luz, filtrada e colorida pelos vitrais, é o principal elemento estético daquelas igrejas. Na Sainte-Chapelle, um dos mais belos e representativos exemplos do gótico rayonnant, a superfície dos panos de vitrais em relação às superficies opacas foi levada ao extremo e preenche praticamente toda a envoltória da capela. Há um contraste absoluto entre o peso do exterior e a leveza do interior da capela: seus pilares robustos e pouco espaçados, quando vistos por fora,  sao imperceptíveis quando se entra no santuário, inteiramente banhado de luz e cor através dos seus imensos vitrais verticais, sem qualquer marcação horizontal. As nervuras dos pilares projetam-se sem interrupção até as abóbodas, acentuando a verticalidade do espaço que parece lançar-se para o céu (ver fotos acima).

Já na Inglaterra, o período gótico é dividido em três fases: early english (correspondente ao gótico primitivo e clássico), estilo “decorado” e o estilo “perpendicular” (correspondente ao gótico tardio na Espanha, Alemanha e França). O estilo “decorado” é representado pelas catedrais de Bristol e de Ely. Nelas, os olhos do observador não são mais atraídos pelos impulsos leste e vertical dominantes das catedrais góticas clássicas, mas para todas as direções ao mesmo tempo. Surgem os pilares compósitos, que possuem capitéis apenas em alguns fustes, enquanto os outros lançam-se ininterruptamente até se inserirem nas abóbadas. E os arcos transversos das abóbadas são reduzidos a elementos secundários, com menor ênfase.

O estilo “perpendicular” inglês retorna a uma arquitetura mais sóbria e de horizontalidade enfatizada. Marcações horizontais nas paredes das naves põem fim ao impulso vertical próprio do gótico primitivo. As paredes continuaram a ser constituídas por grandes painéis de vidro. Ainda havia bastante decoração nas abóbadas, porém mais geométrica, abstrata. As nervuras perdem a lógica estrutural, como por exemplo as da catedral de Gloucester, que acabam se transformando numa abóbada de berço, com decoração aplicada sobre sua superfície.


Na Espanha e na Alemanha, a ornamentação foi levada ao extremo. A decoração também era extravagante em Portugal durante o reinado de D. Manuel I (1495-1521), uma época de grande prosperidade. O estilo “manuelino”, que utilizou formas inspiradas em crustáceos e vegetais, sofreu influência da arquitetura da Índia, da África e do Novo Mundo.

Referências bibliográficas:
Cole, Emily, dir. Grammaire de l'Architecture (Dessain et Tolra, 2004).
Pevsner, Nikolaus, Panorama da Arquitetura Ocidental (São Paulo: Martins Fontes, 2002).

9 de jun. de 2011

corbusier + lucio costa + niemeyer















Publico aqui um texto que escrevi para uma apresentação no curso de francês, sem imagens já que não tenho fotografias minhas desses edifícios, infelizmente. Mas vou publicar fotos de Brasília em breve...

I POST HERE UN TEXT WHICH I WROTE FOR A PRESENTATION IN THE FRENCH COURSE, WITHOUT IMAGES BECAUSE I DON’T HAVE MY OWN PICTURES OF THESE BUILDINGS, UNFORTUNATELY… BUT I WILL POST PICTURES OF BRASÍLIA SOON…

Je publie ici un texte que j’ai écrit pour une présentation au cours de français, sans images parce que je n’ai pas de photos à moi de ces édifices, malheureusement. Je vais publier photos de Brasília bientôt…



Les relations entre l’architecture au Brésil et en France au XXème siècle:
3 personnages célèbres

Le but de cette présentation est, tout d’abord, parler des bâtiments conçus par des architectes brésiliens en France. Par contre, j’ai eu envie d’aller un peu plus loin et développé le sujet, en parlant des relations entre l’architecture au Brésil et en France au XXème siècle à travers de 3 personnages célèbres : Le Corbusier, Lucio Costa e Oscar Niemeyer.

Le premier, Le Corbusier, architecte franco-suisse, est l’une des pionniers du Mouvement Moderniste, c’est à dire le période de l’histoire de l’architecture compris environ entre les années 1930 e 1970.  Il est né Charles-Édouard Jeanneret-Gris en 1887 en Suisse et ce n’est qu’à l’âge de 40 ans qu’il a changé son nom, quand il s’est installé définitivement à Paris. Le Corbusier a profondément influencé le Modernisme au Brésil, particulièrement l’œuvre de Lucio Costa.

Lucio Costa, architecte et urbaniste brésilien, a réussi une notoriété  internationale grâce à la construction de la nouvelle capitale du Brésil, Brasilia, dont plan d’urbanisme a été conçu par lui en 1957. Son père était diplomate, raison pour laquelle il est né a Toulon, France, en 1902, mais la famille a rentré à Rio de Janeiro cette même année. 8 ans plus tard, la famille retourne en Europe et Lucio Costa a fait ses études en Angleterre et ensuite en Suisse. Une fois finalement rétablie à Rio, en 1917, il entre l’Ecole Nationale des Beaux Arts. Environ 15 ans après, un étudiant de la même école lui demande un stage dans son agence d’architecture ; c’était Oscar Niemeyer.

Oscar Niemeyer, le plus connu architecte brésilien, est né à Rio en 1907. Son nom complet, Oscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares Filho, dénonce ses origines portugaise et, encore plus loin, allemande, puisque sa généalogie montre qu’il descend d’un colonel Niemeyer qui est né à Hanover en 1761 et a déménagé au Portugal. Les antécédents de Oscar ont vécu au Portugal jusqu’au milieu du XIXème siècle et  son grand-père est déjà né à Rio de Janeiro. Il commence sa formation en architecture en 1930 et pendant son stage au cabinet de Lucio Costa, Niemeyer a eu le premier contact avec les idées révolutionnaires de Le Corbusier.


Ancien Ministère de l’éducation  et de la santé
Lors de son passage à Rio au début des années 1930, Le Corbusier a laissé à Lucio Costa un croquis contenant la conception initiale pour le nouveau bâtiment du Ministère de l’éducation et de la santé qu’aurai du être construit. Au même temps, le gouvernement a organisé un concours national pour ce bâtiment dont le projet choisi était carrément académique et traditionnel. Le ministre concerné, Gustavo Capanema, un homme très cultivé est ouvert aux nouveaux idéales du mouvement moderniste, a désigné, donc, Lucio Costa pour diriger une équipe d’architectes qui aurait concevoir le bâtiment. L’équipe, y compris Niemeyer, a décidé de prendre les premières idées laissées par Corbusier et l’ont interprété et développé. Ce bâtiment est devenu une référence de l’architecture moderniste parce qu’il uni deux caractéristiques. Premier mot, les principes fondamentaux de la théorie corbuséenne, c’est à dire des pilotis, des toits-terrasses, un plan libre, un agencement libre de la façade et l’utilisation des brise-soleils. Et deuxième mot, l’esprit du modernisme brésilien représenté particulièrement par l’intervention de deux autres célèbres brésiliens : les jardins du paysagiste Burle Marx et les panneaux en faïence du peintre Candido Portinari.


Brasília
En 1944, Le Corbusier a publié dans la Charte d’Athènes ses exigences et réflexions au sujet de la ville moderne, qui fonctionnelle et salubre. Ce document historique contient les bases théoriques du plan de Brasília, pas suivi au pied de la lettre mais, encore une fois, réinterprété par Lucio Costa. Niemeyer a conçu les principaux monuments de Brasilia. Cette épopée de la nouvelle capitale, inaugurée en 1960, a rendu à Niemeyer la reconnaissance mondiale, aussi bien qu’à Lucio Costa, bien que celui-ci n’ait pas la même popularité entre le grand public.

Ces deux œuvres mentionnés, un à l’échelle du bâtiment et l’autre à l’échelle de la ville, représente la synthèse de la génialité de ces 3 architectes.


Maison du Brésil
En 1952, Lucio Costa a reçu une autre demande du gouvernement : le projet de la Maison du Brésil à Paris. Il a fait la conception initiale du bâtiment, une esquisse et une description détaillée, mais a confié à Corbusier le développement du projet. Celui-ci a gardé le parti original mais a également inclus plusieurs nouveaux détails. L’ensemble, situé à la Cité Internationale Universitaire de Paris (14ème arrondissement) et construit entre 1957 et 1959, consiste de chambres d’étudiants et d’espaces culturels pour la diffusion de la culture brésilienne.

Un autre partenariat historique s’est fait entre Le Corbusier e Niemeyer lors du projet du siège d’ONU à New York, en 1952. Après le coup d’état qui a instauré une dictature militaire au Brésil en 1964, Oscar Niemeyer s’est auto-exilé en France et a ouvert son cabinet à Paris. Dans ce période la, il a conçu les deux bâtiments suivants : le Siège du Parti Communiste Français, construit entre 1965 et 1980 à Paris (Place du Colnel-Fabien, 19ème arrondissement) ; et la Maison de la Culture du Havre, bâti entre 1978 et 1982. Une curiosité : en 2008, Niemeyer a encore travaillé sur le projet d’aménagement de ce quartier.

Dans les années 1980, déjà retourné au Brésil démocratique, Niemeyer a projeté deux autres bâtiments en France : la Bourse du Travail à Bobigny, en 1980 ; et l’ancien siège du quotidien L’Humanité, à Saint-Denis, en 1989. Vues ces projets, on n’a pas besoin de dire quel est sa position politique…

Niemeyer a exploré au maximum les possibilités de la structure en béton armée, en dessinant les surprenants courbes et les grandes, parfois immenses, portées. Il y a des nombreux critiques qui soutien l’idée que l’œuvre de Le Corbusier, depuis les années 1950, a été influencé par ce de Niemeyer, particulièrement sa façon libre d’utiliser le béton armé. Le meilleur exemple c’est la Chapelle Notre-Dame-du-Haut de Ronchamp, chef-d’ œuvre corbuséenne, construit entre 1950 et 1955.

28 de mar. de 2011

gótico

























Catedral Saint-Gatien: Tours, França, séculos XII-XVI
SAINT-GATIEN CATHEDRAL: TOURS, FRANCE, 12-16TH CENTURIES 
Cathédrale Saint-Gatien: France, XII-XVIe siècles 
























Catedral Notre-Dame de Chartres: França, séculos XII-XIII  fachada principal e entrada lateral

NOTRE-DAME DE CHARTRES CATHEDRAL: FRANCE, 12-13TH CENTURIES 
MAIN FAÇADE AND LATERAL ENTRANCE

Cathédrale Notre-Dame de Chartres : France, XII-XIIIe siècles  façade principale et entrée latérale


Uma breve contextualização do PERÍODO GÓTICO PRIMITIVO E CLÁSSICO (1150-1250) da história da arquitetura:

O marco do início da arquitetura gótica foi a reconstrução,  entre 1140 e 1144, do coro da abadia de S. Denis, próxima a Paris. É interessante notar que as três principais características formais góticas - o arco ogival, o arcobotante e a abóbada nervurada - não foram inventadas nesse período. A grande inovação gótica foi, nas palavras de Pevsner (2002, p. 82), a “combinação desses motivos numa nova proposta estética”, cujo objetivo era “animar massas inertes de pedra, acelerar o movimento do espaço e reduzir toda a construção ao que, aparentemente, seria um sistema inervado de linhas de ação”. Este autor defende a tese de que a evolução estética da arquitetura gótica foi mais significativa que a evolução técnica, a qual se expressou na evoluçao da aboboda e do arcobotante, descrita a seguir. 

O peso da abóbada de berço é distribuído ao longo das paredes, enquanto que o peso da abóbada de arestas recai sobre apenas quatro pontos. Mas ambas necessitavam de vãos quadrados. Já a abóbada de arco ogival dá maior verticalidade e portanto maior segurança estrutural, além de permitir vãos retangulares ou de outras formas, pois o arco ogival pode ser “esticado” horizontalmente sem prejuízo dos esforços verticais. As nervuras reforçaram as arestas das abóbadas e os arcobotantes e contrafortes no exterior da igreja permitiram paredes mais finas. Essas inovações estruturais tinham como intuito possibilitar a aparência de leveza e imaterialidade no espaço interior das igrejas, quer dizer, o objetivo maior foi de ordem estética mais do que técnica.

O conjunto da igreja gótica é composto de três partes, articuladas de forma mais sutil que nas igrejas românicas: oeste (entrada), centro (o transepto) e leste (altar). No fim do século XII, tem-se a passagem do Gótico Primitivo, representado pela Notre Dame de Paris, para o Gótico Clássico, representado pelas catedrais de Chartres (fotos acima), de Reims e de Amiens (outro exemplo é a catedral de Tours na primeira foto), na França, e pelas catedrais de Lincoln e Salisbury, na Inglaterra. As elevações internas da nave, antes divididas em quatro partes (arcada, galeria, trifório e clerestório), passam a ser divididas em 3 partes: possuem apenas o trifório separando as altas arcadas do térreo das altas janelas do clerestório e a verticalidade agora é ainda mais acentuada.

Enquanto na igreja paleocristã o impulso leste era bastante acentuado, na igreja gótica há um impulso vertical além do impulso leste. Existe também um contraste entre um interior espiritual e um exterior racional, onde vemos o mecanismo estrutural explicitado – os arcobotantes e contrafortes. “Assim como uma fuga de Bach, a catedral gótica apela para toda a nossa capacidade emocional e intelectual” (Pevsner, 2002, p.104). Por essa razão, pode ser considerada verdadeira obra de arte.

Referência bibliográfica:
Pevsner, Nikolaus, Panorama da Arquitetura Ocidental (São Paulo: Martins Fontes, 2002).

  

27 de mar. de 2011

românico

 













Catedral Saint-Pierre: Angouleme, França, século XII
SAINT-PIERRE CATHEDRAL: ANGOULEME, FRANCE, 12th CENTURY


   Fleac
Cathédrale Saint-Pierre: Angoulême, France, XIIème siècle


Rouillac













Cognac
Magnac


Exemplos da arquitetura românica construída com a pedra calcárea da região Charente.
EXAMPLES OF ROMANESQUE ARCHITECTURE BUILT WITH THE LIMESTONE OF THE CHARENTE REGION.
Exemples de l'architecture romane construite en calcaire de la région de la Charente.






Uma breve contextualização do PERÍODO ROMÂNICO (1000-1200) da história da arquitetura:

Após a morte de Carlos Magno, o império carolíngio foi dividido, por meio do Tratado de Verdum (843) em: França Ocidental, governada por Carlos, o Calvo e França Oriental, governada por Luis, o Germânico. Desencadeou-se uma série de lutas internas entre as duas partes, que foram também invadidas por vikings, húngaros e sarracenos (árabes muçulmanos). Assim, não houve grande desenvolvimento das artes e arquitetura até o ano de 950.

Porém, durante esse período ocorreu o desenvolvimento do sistema feudal, o restabelecimento da estabilidade política e o surgimento dos movimentos de reforma monástica. O mais significativo destes ocorreu no Mosteiro de Cluny. Por volta de 965, quando o abade Maieul foi entronizado, começou a se desenvolver o estilo românico. A arquitetura religiosa se transformava no sentido de articular com maior nitidez os espaços internos, em oposição ao caráter escultural da arquitetura greco-romana e ao espaço fluido, etéreo, da arquitetura bizantina e paleocristã.

O surgimento do culto aos santos e à Nossa Senhora, além do costume da celebração diária da missa, fez necessária a criação de um número maior de altares nas naves laterais. Assim, aumentou-se o número de capelas nas igrejas, criando-se, em alguns casos, um plano escalonado, como em Cluny. Em outros, criou-se um plano radial, com capelas ao redor da abside, em absides secundárias nas extremidades dos transeptos e ao longo de sua face oriental, resultando no prolongamento dos transeptos. Nas catedrais, a cadeira do bispo era colocada no fundo da abside e as cadeiras dos sacerdotes e ministros eram dispostas em semicírculo.

A concepção das igrejas e mosteiros era dos membros do clero, pois eram estes que possuíam o monopólio da cultura erudita. Bispos, padres, abades e monges, os únicos que sabiam ler e escrever e tinham acessos às bibliotecas dos mosteiros, preservavam documentos da Antigüidade.

A Inglaterra, agora dominada pelos normandos, adotou outro método de delimitação dos espaços. A arquitetura normanda influenciou a da França no século XI, e lançou as bases da arquitetura medieval inglesa. A articulação criada em suas igrejas, por meio de colunas contínuas do chão até o teto, transmitiam uma idéia de estabilidade, os volumes eram maciços, fortes, compactos, e as formas, simples.

Ao final do século XI, as formas tornam-se mais variadas e sofisticadas, traduzindo a nova maneira, mais emotiva, com que os sacerdotes se comunicavam com os fiéis. O românico primitivo transformou-se no românico clássico, por volta de 1100, e a Catedral de Durham é o marco dessa passagem. Seu teto é uma abóbada ogival, cujas linhas dão continuidade às linhas das colunas, antecipando uma característica do estilo gótico. Este elemento de forte expressividade é o ápice da tendência à articulação da arquitetura românica. Enquanto o exterior nas igrejas paleocristãs não era valorizado, as igrejas românicas deviam expressar grandiosidade tanto no exterior quanto no interior. Foi na Alemanha, no final do século XI, que surgiram as primeiras abóbadas da Europa.

Na Idade Média, a comunicação cultural entre os países se dava principalmente por meio das peregrinações, que tinham - e têm até hoje - como meta a igreja de Santiago de Compostela, iniciada em 1077. O planejamento das igrejas reflete tal comunicação. Houve um forte intercâmbio de idéias, por exemplo, entre o norte da Itália e a Alemanha. As igrejas da Itália, no entanto, ainda estavam mais próximas da tradição paleocristã, sem transeptos alongados. A igreja mais característica da arquitetura italiana desse período é a San Miniato Al Monte, em Florença, construída na passagem do século XI para o XII (fotos abaixo).

Referência bibliográfica:
Pevsner, Nikolaus, Panorama da Arquitetura Ocidental (São Paulo: Martins Fontes, 2002).